A sensação de bem-estar depois de uma corrida longa é conhecida por muitos corredores, mas a explicação não parece estar apenas nas endorfinas. Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista BMC Medicine acompanhou maratonistas e ultramaratonistas para observar, em condições reais de prova, como o sistema endocanabinoide reage a esforços prolongados.
Os pesquisadores analisaram 19 corredores durante uma maratona e compararam as respostas com uma caminhada de mesma duração. Em outro grupo, 36 atletas foram avaliados antes e depois de ultramaratonas de 100 km, 160 km e 230 km. O objetivo era entender como substâncias ligadas ao chamado “runner’s high” se comportam quando o exercício dura várias horas.
Anandamida aumenta durante a corrida
O principal achado envolveu a anandamida, conhecida pela sigla AEA, um endocanabinoide produzido pelo próprio organismo. Seus níveis aumentaram progressivamente durante a maratona e permaneceram elevados mesmo 45 minutos depois da chegada.
Nas ultramaratonas, a AEA também apareceu em níveis mais altos após todas as distâncias analisadas. Outro endocanabinoide, o 2-AG, apresentou uma resposta mais tardia, com aumento principalmente nas fases finais da maratona e durante a recuperação.
As mudanças químicas vieram acompanhadas por alterações no estado emocional. Durante a maratona, os corredores apresentaram mais euforia e menos ansiedade em comparação com a caminhada. A dor, por outro lado, aumentou a partir das etapas mais avançadas do percurso.
Mais quilômetros não significaram mais euforia
Os resultados das ultras mostram que a relação não é tão simples. Apesar do aumento dos endocanabinoides e da redução da ansiedade, os atletas não apresentaram aumento significativo de euforia depois das provas de 100 km, 160 km e 230 km. A dor também foi maior após os esforços extremos.
Isso significa que correr cada vez mais longe não produz necessariamente uma sensação proporcionalmente maior de prazer. O runner’s high também não aparece da mesma maneira para todos: no grupo da maratona, apenas três dos 19 participantes afirmaram claramente ter experimentado essa sensação.
E as endorfinas?
Durante muito tempo, o bem-estar provocado pela corrida foi atribuído principalmente às endorfinas. Estudos mais recentes, porém, fortaleceram a participação dos endocanabinoides nessa resposta.
Em um experimento anterior com humanos, pesquisadores bloquearam os receptores opioides com naltrexona e observaram que a corrida ainda produzia aumento de euforia e redução de ansiedade. Os níveis de endocanabinoides também subiram, sugerindo que as endorfinas não explicam sozinhas o fenômeno.
Estudos com animais já haviam apontado na mesma direção. Em 2015, um trabalho publicado na PNAS mostrou que bloquear receptores canabinoides em camundongos reduzia efeitos relacionados à diminuição da ansiedade e da dor após a corrida.
O novo estudo não prova que os endocanabinoides sejam os únicos responsáveis pelo bem-estar de quem corre. Ele mostra, porém, que esse sistema permanece ativo e sofre alterações importantes mesmo durante horas de exercício, ajudando a explicar por que uma corrida longa pode mexer tanto com o corpo quanto com o humor.

















