Uma prova de corrida pode ser só uma data no calendário. Para Eleandro, a SP City virou medida de tempo, de saúde, de fé e de recomeço. Aos 41 anos, formado em Educação Física, treinador de corrida, empresário e dono de um estúdio de treinamento, ele olha para a prova como uma espécie de ponto fixo na própria trajetória. “A SP City é uma prova que eu tenho um carinho enorme. É uma prova minha de calendário anual”.
A relação dele com a corrida começou em 2014, ainda sem grandes planos. Na época, corria de forma esporádica, mais pela necessidade de fazer atividade física e cuidar do corpo. Estava com sobrepeso e encontrou no esporte uma forma de se movimentar. As distâncias eram curtas, sem planilha, sem muita referência e sem a quantidade de informação que hoje circula nas redes.
Dos 16 km ao primeiro desafio nos 21 km
Em 2015, Eleandro correu 16 km pela primeira vez. Aquilo, para ele, já parecia enorme. A distância virou conquista pessoal e chamou a atenção de um tio, Ely, também conhecido na família como Mello, que passou a ter papel decisivo nessa história. “Hoje eu considero ele meu padrinho de corrida de rua. Ele que me apresentou os 21 quilômetros”, conta.
O convite veio para uma prova de 21 km. Eleandro aceitou sem entender muito bem o tamanho do desafio. Até então, sua maior referência eram os 16 km. A experiência foi dura. Ele sentiu dor, pensou em parar, terminou “do jeito que deu”, ficou dias dolorido e chegou a perder unha. Saiu com a impressão de que meia maratona talvez não fosse para ele.
Mesmo assim, não parou. Continuou correndo 10 km, 15 km, provas menores, até voltar a pensar nos 21 km com outro olhar. Em 2016, o tio voltou com uma nova proposta: correr a meia da então ASICS/City Marathon em São Paulo. Eleandro aceitou, se preparou melhor e teve outra experiência. “Eu falei: dá para fazer. Treinando certinho, seguindo as coisas certas, dá para fazer 21 quilômetros.”
Foi ali que a SP City entrou de vez na vida dele. Eleandro se encantou pelo percurso, pela estrutura e pelo clima da prova. “Eu me apaixonei pelo percurso, me apaixonei pela estrutura da prova. Saí em êxtase”, diz.
A prova que virou tradição

Em 2017, ele correu a Rio City e, dois meses depois, voltou para a SP City. A experiência em São Paulo confirmou a sensação do ano anterior. No pós-prova, em meio à comemoração, surgiu uma ideia maior: fazer a maratona em 2018. A princípio, a prova teria um sentido familiar de celebração. A esposa estava grávida, e o filho, Bernardo, era esperado para nascer entre março e abril. Eleandro imaginou a primeira maratona como uma forma de comemorar a chegada do bebê. Mas em 23 de janeiro de 2018, a história mudou de rumo.
A esposa foi a uma consulta de rotina e recebeu a notícia de que precisava passar por uma cesárea de urgência. Bernardo nasceu prematuro, de sete meses, e precisou ir para a UTI neonatal. “O médico falou que minha esposa estava bem, mas que meu filho teria que lutar para continuar aqui”, relembra.
A maratona da fé

Foram cerca de quatro meses entre UTI neonatal e alta. Nesse período, Eleandro viveu uma rotina difícil: visita diária ao filho, incerteza sobre a evolução do quadro e treinos para a primeira maratona. Muitas vezes, saía do hospital e ia correr 10 km, 12 km, 18 km. “Eu saía pedindo para Deus manter esse menino com a gente e ia fazer minha corrida do dia.”
Em um desses treinos, tropeçou, caiu, ralou a mão e o joelho. O machucado na mão tornou a visita à UTI ainda mais delicada. Ele precisava higienizar o ferimento, passar álcool, colocar luva cirúrgica e entrar para ver o filho na incubadora. “Eu fazia minha oração dentro da incubadora onde ele se encontrava”, conta.
Quando Bernardo recebeu alta, em junho, Eleandro concluiu a preparação e foi para a SP City 2018. A primeira maratona deixou de ser apenas estreia nos 42 km. Virou uma travessia. “Do quilômetro 1 ao 42, eu fui agradecendo a Deus e pedindo a vida do meu filho.”
No km 41, ao sair do túnel próximo ao Jockey, viu a esposa, a mãe, o pai e Bernardo no colo. Já estava com dor, cãibras e sentindo o peso da primeira maratona. Mas aquele encontro deu outro significado à chegada. “Ali eu encontrei Deus e entendi o que é acreditar na vida.”
Pandemia, retorno e novos ciclos

Depois de 2018, Eleandro saiu decidido a voltar em 2019. Correu a edição seguinte e comprou a próxima, mas a pandemia interrompeu o calendário. A SP City voltou em 2022, e ele correu a meia maratona. A prova marcou a saída de um período difícil, uma troca de empresa e novas conquistas profissionais.
Em 2023, aceitou o convite de um amigo para fazer a segunda maratona da vida, novamente na SP City. Os dois correram juntos os 42 km, e Eleandro completou em 3h50. “Foi a prova mais icônica que eu fiz fisicamente, pelo preparo”, afirma. Em 2024, voltou para acompanhar o amigo Felipe, que faria seus primeiros 21 km. Para Eleandro, indicar a SP City como estreia de alguém na meia maratona fazia sentido: era a prova que também havia mudado sua relação com a distância.
Novos caminhos, correndo sempre
Agora, a preparação para a próxima maratona carrega outro peso. Ele passou por um acidente de carro, sofreu um acidente de bicicleta no qual quebrou cinco dentes e perdeu recentemente o pai para o câncer. Mesmo assim, quer estar mais uma vez na largada. “Vai ser uma maratona de superação. Vou fazer com unhas e dentes e força.”
Para Eleandro, a SP City virou mais que uma prova bem organizada ou um percurso especial em São Paulo. Ela atravessou paternidade, medo, fé, pandemia, amizade, luto e profissão. “Uma prova um dia mudou minha vida”, diz. “Se não fosse a SP City, eu acho que eu já teria diminuído muito minha forma de pensar no esporte.”

















