Sentir dor no joelho, no quadril ou no tornozelo costuma ser tratado como um “preço da idade” entre corredores. Mas essa explicação é cada vez menos aceita. Hoje, o entendimento mais atual aponta para um fator silencioso e contínuo: a inflamação crônica de baixo grau, que pode afetar articulações mesmo em quem treina regularmente.
Diferente de uma lesão pontual ou de um processo inflamatório agudo, a inflamação crônica não surge de um trauma específico. Ela se instala aos poucos e passa a interferir na recuperação, na resposta ao treino e na percepção de dor, criando um cenário em que o corpo parece sempre “irritado”, mesmo sem uma causa evidente.
Inflamação aguda x inflamação crônica: por que isso importa para o corredor
A inflamação aguda faz parte do processo normal de adaptação ao treino. É ela que ajuda o músculo a se reconstruir após um estímulo intenso, que explica o inchaço após uma pancada ou a febre durante uma infecção. Esse tipo de inflamação tem começo, meio e fim.
Já a inflamação crônica funciona de forma diferente. Ela permanece ativa por semanas ou meses, mesmo sem um gatilho claro, e passa a prejudicar tecidos em vez de repará-los. Nas articulações, isso pode se manifestar como rigidez matinal, sensação de inchaço persistente, queda de rendimento e dores que aparecem sem relação direta com aumento de carga.
Em corredores, esse estado inflamatório contínuo costuma estar ligado a um conjunto de fatores, não apenas ao impacto da corrida.
Por que dor no joelho nem sempre é “desgaste”
Durante muito tempo, problemas como a osteoartrite foram tratados apenas como desgaste mecânico da cartilagem. Hoje, já se sabe que processos inflamatórios sistêmicos também participam desse quadro, mesmo quando o dano estrutural é pequeno ou difícil de identificar.
Isso ajuda a explicar por que dois corredores com histórico semelhante podem ter experiências completamente diferentes: um corre sem dor, enquanto o outro convive com desconforto constante. A diferença muitas vezes está fora da articulação, e não dentro dela.
Fatores do dia a dia que alimentam a inflamação crônica
Antes de pensar em gelo, anti-inflamatórios ou pausas longas, vale observar hábitos que influenciam diretamente o estado inflamatório do corpo.
Entre os principais fatores estão:
- Excesso de açúcar, ultraprocessados e gorduras saturadas
- Sono insuficiente ou fragmentado
- Treinos intensos sem recuperação adequada
- Estresse constante, físico ou emocional
- Consumo frequente de álcool
- Longos períodos de inatividade fora do treino
Esses elementos se somam. O corpo até tolera um deles isoladamente, mas quando vários se acumulam, a inflamação tende a se manter elevada.
Alimentação anti-inflamatória: ajustes simples que fazem diferença
Não se trata de dieta restritiva, e sim de escolhas consistentes. Reduzir alimentos inflamatórios e aumentar o consumo de fibras ajuda a modular o sistema imunológico e o intestino, que tem papel central no controle da inflamação.
Alimentos com efeito anti-inflamatório incluem frutas vermelhas, vegetais verde-escuros, leguminosas, grãos integrais, azeite de oliva, cúrcuma, chá-verde e oleaginosas. Quanto mais variedade de cores no prato, melhor o perfil nutricional.
Sono e estresse: os pilares mais ignorados
Durante o sono profundo ocorrem processos essenciais de reparo celular. Dormir mal interrompe esse ciclo e mantém o organismo em estado de alerta, favorecendo inflamação persistente. Para corredores, isso se traduz em recuperação incompleta e maior risco de dor articular.
O estresse segue a mesma lógica. Tensão emocional aumenta a rigidez muscular, altera hormônios e intensifica processos inflamatórios. Estratégias simples, como alongamentos leves, caminhadas sem objetivo de treino ou pausas conscientes ao longo do dia, ajudam a quebrar esse ciclo.
Exercício continua sendo parte da solução
Parar completamente raramente é a melhor resposta. A inatividade, por si só, é inflamatória. O caminho mais eficiente costuma ser ajustar o estímulo, não eliminá-lo.
Alternar corrida com bicicleta, natação ou treino de força, reduzir temporariamente a intensidade e manter a consistência ajuda a preservar o condicionamento enquanto o corpo se reorganiza. Movimento controlado protege mais do que repouso prolongado.
O que muda quando o foco sai da articulação
Quando o corredor entende que a dor é um sinal sistêmico, e não apenas local, a estratégia muda. Em vez de tratar apenas o joelho, passa a cuidar do sono, da alimentação, do estresse e da recuperação como parte do treino.
Esse ajuste não gera alívio imediato, mas costuma produzir efeitos perceptíveis em poucas semanas. Menos rigidez, menor recorrência de dor e sensação de corpo mais responsivo ao treino são sinais de que a inflamação está, finalmente, sob controle.

















