Quem corre com frequência provavelmente já sentiu aquele incômodo chato na canela, que começa discreto e vai ficando cada vez mais intenso a cada passada. Essa dor, conhecida como canelite, é um dos problemas mais recorrentes entre corredores de rua e pode transformar treinos prazerosos em semanas de frustração se não for tratada da forma certa.
A canelite surge quando há sobrecarga e inflamação na região da tíbia, o osso da canela, provocada por impacto repetitivo. O quadro é mais comum em quem aumenta o volume de treinos rapidamente, mas pode atingir até atletas experientes quando a recuperação falha. Saber identificar os sinais precoces é o primeiro passo para evitar que a dor evolua para uma lesão mais séria.
O que é canelite
O nome técnico da canelite é síndrome do estresse tibial medial. Ela ocorre quando o tecido que recobre o osso e os músculos da perna sofrem microlesões repetidas. O resultado é dor na parte interna da canela, que costuma piorar com a corrida e melhorar com o repouso.
Nos estágios iniciais, a dor aparece só no começo do treino, depois diminui com o aquecimento. Se ignorada, tende a se intensificar até se tornar constante, mesmo em repouso. Em casos mais graves, pode evoluir para uma fratura por estresse, exigindo semanas de pausa completa.
Por que a canelite aparece
As causas da canelite estão ligadas a um conjunto de fatores que envolvem excesso de impacto e falta de adaptação do corpo. Os principais motivos incluem:
- Aumento brusco de volume ou intensidade dos treinos, sem tempo de adaptação
- Superfícies muito duras, como asfalto e concreto
- Tênis inadequado ou desgastado, que reduz a absorção de impacto
- Falta de força muscular nos tornozelos, panturrilhas e quadris
- Pisada incorreta ou desalinhamentos biomecânicos, como pronação excessiva
- Mobilidade reduzida nas articulações inferiores
Corredores iniciantes costumam desenvolver o problema por falta de base muscular. Já atletas experientes geralmente sofrem com o retorno precoce após ciclos longos, treinos intensos demais ou negligência com o descanso.
Como prevenir o problema
A melhor forma de evitar a canelite é respeitar a progressão gradual de treinos. O corpo precisa de tempo para se adaptar ao impacto da corrida. Aumentar o volume semanal em no máximo 10% e alternar dias intensos com treinos leves ou descanso ativo é o ideal.
O fortalecimento muscular é outro ponto-chave. Exercícios de força para panturrilhas, tornozelos, coxas e quadris ajudam a estabilizar o movimento e reduzir a sobrecarga sobre a tíbia. Incluir treinos como elevação de panturrilhas, agachamentos, avanço, ponte e exercícios de propriocepção é essencial para quem corre com frequência.
Também é importante variar o tipo de terreno, combinando treinos em pista, asfalto e grama, e usar tênis adequados para o tipo de pisada e para o peso corporal. Alongamentos e exercícios de mobilidade depois da corrida ajudam a manter a flexibilidade da panturrilha e do tornozelo, o que diminui a tração sobre o osso da perna.
Tratamento e recuperação
Quando a dor já apareceu, o mais importante é interromper o impacto por alguns dias para que o tecido se recupere. Reduzir o volume, trocar a corrida por bicicleta, natação ou elíptico e aplicar compressas frias ajuda a controlar a inflamação.
Durante esse período, é essencial manter o fortalecimento muscular e trabalhar a mobilidade para preparar o corpo para o retorno. O descanso absoluto raramente é necessário, mas insistir em correr com dor pode agravar o quadro e prolongar a recuperação.
O retorno deve ser gradual. É recomendável voltar com treinos curtos, leves e intercalando corrida e caminhada nas primeiras sessões. O aumento do volume e da intensidade só deve acontecer quando não houver dor durante nem após o treino.
Em casos persistentes, exames de imagem podem ajudar a identificar se já há uma fratura por estresse ou outro tipo de lesão associada. Mesmo quando o quadro é leve, tratar com atenção desde o início é o que garante que o problema não se torne crônico.
Como manter-se livre da canelite
A canelite é um alerta do corpo mostrando que a estrutura óssea e muscular não está suportando o impacto da corrida. Corrigir o erro de origem é o que garante que ela não volte. Treinar com equilíbrio, respeitar o descanso e fortalecer o corpo são medidas simples, mas eficazes, para quem quer correr por muitos anos sem dor.
Mais do que uma lesão, a canelite é um lembrete: o progresso na corrida depende de paciência. Cada quilômetro conquistado só vale a pena quando o corpo está preparado para sustentar o próximo.

















