Depois de um treino longo ou de uma prova de resistência, é normal sentir as pernas pesadas, o corpo cansado e aquela fome difícil de controlar. O que quase ninguém imagina é que, além dos músculos, outra parte do corpo também sofre impacto direto: as hemácias, as células responsáveis por transportar oxigênio pelo sangue.
Um estudo recente trouxe um alerta interessante para quem encara maratonas, ultras e desafios extremos de montanha. A pesquisa analisou como provas muito longas afetam a saúde das hemácias e encontrou sinais de dano celular após esforços prolongados — especialmente em distâncias que ultrapassam a maratona tradicional.
O que acontece com as hemácias em provas longas
As hemácias precisam ser flexíveis para atravessar vasos sanguíneos microscópicos e entregar oxigênio aos tecidos. Durante corridas muito longas, porém, o fluxo sanguíneo intenso, o impacto repetitivo e o estresse metabólico parecem alterar essa flexibilidade.
No estudo, pesquisadores coletaram amostras de sangue de corredores antes e depois de duas provas de trail: uma de 40 km e outra ultradistância, com mais de 170 km e altimetria acumulada comparável à subida do Everest. A análise identificou milhares de marcadores ligados à saúde das hemácias.
O resultado foi claro: houve aumento significativo de lesão e envelhecimento precoce dessas células após as provas. Quanto maior a distância e o tempo de esforço, maior o dano observado.
Maratona é o limite?
Um dos pontos mais interessantes da pesquisa é a sugestão de que existe um “ponto de virada” entre a maratona e a ultramaratona. A partir de determinado volume e intensidade de esforço, o dano às hemácias se torna mais evidente.
Isso não significa que correr envelhece de forma geral ou que seja prejudicial à saúde. Pelo contrário: os benefícios cardiovasculares da corrida são amplamente documentados. A questão levantada é outra — como o corpo lida com o estresse extremo e quanto tempo leva para se recuperar totalmente após esforços tão prolongados.
Os próprios pesquisadores destacam que ainda não se sabe:
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Quanto tempo o organismo leva para restaurar completamente as hemácias afetadas
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Se há impacto acumulativo em atletas que fazem ultras com frequência
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Se parte dessas adaptações pode até trazer algum benefício fisiológico
Ou seja, há mais perguntas do que respostas definitivas.
O que isso muda para quem treina forte?
Para corredores amadores e competitivos, a principal mensagem não é reduzir ambição, mas ajustar estratégia. Treinos muito longos e provas extremas exigem planejamento cuidadoso de recuperação, sono e nutrição.
Alguns pontos ganham ainda mais importância:
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Reposição adequada de ferro e nutrientes ligados à produção de hemácias
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Períodos estruturados de descanso após provas longas
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Monitoramento de sinais de fadiga persistente ou queda de rendimento
No fim das contas, correr longe continua sendo seguro para a maioria das pessoas quando há acompanhamento e progressão adequada. O estudo não aponta que a corrida “envelhece” o atleta, mas reforça algo que já sabemos: esforço extremo gera estresse fisiológico real.
Para quem sonha com maratonas e ultras, a lição é simples. Quanto maior o desafio, maior deve ser o cuidado com o corpo. Porque resistência não é apenas cruzar a linha de chegada — é garantir que você possa voltar a treinar forte na semana seguinte.











