Algumas histórias de corrida começam por um plano de performance. Outras começam por uma cena pequena, quase banal, que acende algo por dentro. No caso de Lucas Moraes, o primeiro gatilho foi bem comum em ambientes corporativos, daqueles desafios em que ninguém quer passar vergonha na frente do time.
“Eu comecei a correr de fato de uma forma bem comum dentro de ambientes corporativos, corrida de empresa ‘forçado’ a fazer 3 km.” Na memória dele, a distância era curta, mas a sensação era de maratona. “Lembro que foi 3 km, mas parecia que tinham 42 km”, brinca.
O detalhe que ficou não foi o desconforto, nem a falta de fôlego. Foi o que ele percebeu sobre si mesmo no meio do percurso. “O percurso todo eu estava sorrindo e incentivando pessoas.” Anos depois, ele liga esse começo simples ao que viria a ser o centro da própria identidade na corrida.
Lucas estudou, se dedicou e virou personal trainer e treinador de corrida. Alguém que encontrou no esporte um propósito de vida. Mas o ponto de virada da história dele vem de um diagnóstico que mudou a perspectiva sobre tudo.
O diagnóstico: um “km 38” fora de hora
O tumor no cérebro trouxe um tipo de silêncio que ele descreve como parede mental. “Foi um silêncio imenso na minha mente uma parede mental.” E a comparação que ele faz é dura e precisa para qualquer corredor: “Se fosse comparar com uma maratona, seria o quilômetro 38 de uma maratona, onde você está sem ninguém e muitas vezes sem forças.” Naquele momento, ele conta que a fé ainda existia, mas havia dúvida real sobre continuidade. “Me via com uma dúvida se eu continuaria levando o propósito na corrida.”
O choque não foi só emocional. Houve também um peso de prognóstico. “Um dos médicos que passei me disse que meu caso era raro e no mínimo eu levaria 1 ano e meio para retomar os movimentos do lado que seria afetado”. A fala veio com um recado direto, quase como quem tenta preparar o atleta para uma realidade dura. “Ele até disse: você que é do esporte vai demorar para você retomar sua rotina.”
SP City antes da cirurgia: estar ali para “viver”
Uma semana antes da cirurgia, Lucas foi para a SP City Marathon não como corredor, mas como alguém que precisava se conectar com aquilo que ainda fazia sentido. A decisão veio na véspera do evento, em casa. “Na noite de sexta eu disse para minha esposa: vamos lá na SP City, eu quero viver e ver meus amigos naquela corrida”. Ele não descreve essa escolha como distração, e sim como estratégia emocional. “Porque eu sabia que muito da força que tenho era da corrida e isso me ajudaria muito”.
No dia, ele estava com seus amigos e alunos. E o papel que assumiu foi o que ele já tinha descoberto lá atrás, nos 3 km corporativos: incentivar. “Pude incentivar e ver muitas pessoas, algumas nem sabiam pelo que eu estava passando, mas nem por isso eu neguei um: ‘boraaa, tá acabandooooo’ e um sorriso”. Naquele momento, a corrida não era sobre pace. Era sobre presença, sobre não se afastar do próprio mundo antes do que viria.
O ponto mais marcante daquele dia não foi uma cena isolada de torcida. Foi o que veio depois, quando a prova termina e as pessoas se encontram de verdade. “O momento mais marcante foi o abraço que ganhei de todos e principalmente de um dos meus melhores amigos que a corrida me deu: Davi”. E a frase do amigo, simples, virou promessa. “Ano que vem você estará fazendo essa prova”.
A reconstrução: voltar antes do previsto
O que veio depois foi cirurgia, tratamento e um processo de reconstrução que ele descreve com surpresa até para quem acompanhava de fora. “A reconstrução foi um milagre de Deus”. Ele lembra que o esperado seria um caminho mais longo, com um trâmite físico mais pesado. “Pois o comum é ter todo o trâmite físico”. Mas o corpo respondeu de um jeito que fugiu do roteiro. “Nem para UTI eu fui.”
A volta à corrida, segundo ele, veio rápido. “Após 15 dias eu já estava trotando leve”. E não foi uma retomada pontual, só para testar. Ele seguiu correndo de forma controlada durante o próprio tratamento. “Corri, claro ritmo moderado e controlado em todo tratamento nas radioterapias e quimioterapias”. O efeito disso, para ele, foi ver até os médicos questionarem o que estava acontecendo. “Os médicos desacreditarem do que estava acontecendo”.
SP City depois: a prova que fecha o ciclo

Um ano depois, a promessa virou fato. Lucas voltou e completou a SP City, agora correndo, com um significado que ultrapassa qualquer narrativa tradicional de prova. Ele diz que a experiência se encaixou num ciclo maior, ligado a um objetivo internacional. “Essa prova fez parte do meu ciclo para minha primeira maratona que fiz em Berlin.” Ainda assim, a SP City aparece como peça central por uma razão pessoal. “Voltar na SP City, uma prova a qual sou apaixonado, fez todo sentido.”

Ele não correu sozinho. A decisão de alinhar ao lado de amigos reforça a ideia de propósito que atravessa a trajetória dele. “Nessa prova puder ir com dois amigos que precisavam de um apoio”. O relato do percurso vem carregado de sensação, não de números. “Foi mágico do primeiro ao último quilômetro”. E a chegada funciona como síntese do que ele viveu no ano anterior. “Ao concluir a prova eu sabia que Deus tinha um propósito maior que eu imaginei e ele vem honrando a cada dia”.
Ele diz que, depois daquela edição, a vida ganhou novos capítulos. “Depois dessa prova muita coisa mágica aconteceu”. E fecha a relação com a SP City de forma direta, como quem fala de um lugar que já não é só prova. “Todo ano quero participar dessa prova pois ela faz parte da minha vida”!

















