Aline Almeida sempre teve o esporte por perto. Desde criança, por volta dos cinco ou seis anos, já estava envolvida em alguma modalidade. Fez balé, handebol, futsal e também passou pela musculação. Entre 2017 e 2020, o futsal era a prática mais presente na rotina, enquanto a academia aparecia de forma complementar. A corrida, naquele momento, ainda não era uma escolha afetiva, nem um objetivo central.
O cenário começou a mudar quando o corpo passou a dar sinais difíceis de entender. Do fim de 2018 para 2019, vieram dores diferentes, ansiedade e sintomas que, no início, pareciam apenas consequência do esporte. “Cara, eu jogo futebol, eu jogo futsal, é pancada, então beleza, pode ser isso.” Com o tempo, porém, Aline percebeu que havia algo fora do padrão. Não era apenas uma pancada mal recuperada ou um incômodo comum de treino.
O diagnóstico que mudou a relação com o corpo
Entre o fim de 2020 e 2021, as crises ficaram mais fortes. As dores passaram a ser intensas a ponto de levá-la ao hospital. Injeções e remédios não resolviam, e os médicos começaram a pedir uma investigação mais ampla. O caminho até o diagnóstico foi longo, com muitos exames, já que a fibromialgia não aparece em um teste único e costuma ser identificada por exclusão de outras possibilidades.
Quando o diagnóstico veio, com acompanhamento de reumatologista e neurologista, a reação foi de choque. Aline era uma pessoa ativa, acostumada a se movimentar, competir e treinar. A ideia de conviver com uma condição crônica, sem cura, bateu de forma dura. “Eu meio que não aceitava.” A descoberta abriu uma fase difícil, com medicação, terapia e um processo emocional de adaptação.
A dor não era apenas física. Havia também a sensação de perder uma parte importante da própria identidade. “Não é possível que eu vou ter algo que não tem cura e que eu vou viver o resto da minha vida assim.” Aos poucos, com conversas, tratamento e retomada da rotina, a atividade física voltou a ocupar um espaço decisivo na vida dela.
O CrossFit como retomada
Em 2022, ao voltar para São Paulo, Aline começou a praticar CrossFit. Já conhecia a modalidade, mas ainda não treinava de forma regular. Foi nesse ambiente que encontrou uma resposta concreta para reconstruir força, confiança e rotina. “Desde então eu comecei a melhorar muito com o CrossFit.”
Ela faz questão de não romantizar o processo nem vender solução fácil. O treino não apagou a fibromialgia, mas passou a ser uma ferramenta importante para lidar com a condição. “A atividade física não vai te curar. Não, ela não vai te curar, mas ajuda muito.” Para quem sempre teve o esporte como parte da vida, o movimento ganhou outro significado depois do diagnóstico.
A partir dali, treinar deixou de ser apenas desempenho, estética ou condicionamento. Virou uma escolha de manutenção da vida possível. “Eu não troco meu treino por nada.” A frase resume uma rotina em que o exercício se tornou inegociável, não por obsessão, mas por necessidade física, mental e emocional.
Da corrida como cardio à SP City
A corrida entrou primeiro como complemento. Aline não se considerava alguém que gostava de correr, mas passou a fazer treinos para melhorar o cardio no CrossFit. Aos poucos, vieram provas curtas, de 5 km e 10 km. Em 2025, fez algumas corridas, incluindo a Athenas, da Iguana, e uma prova de 14 km.
Dois meses depois, apareceu o convite que mudaria sua relação com a distância. Amigos tinham uma inscrição para os 21 km da SP City, porque outra pessoa havia desistido. Aline não estava em uma preparação específica para meia maratona, mas vinha treinando corrida, CrossFit e musculação. A decisão foi tomada quase no susto, faltando poucos dias para a prova.
A ansiedade veio junto. Os 21 km pareciam muito maiores do que tudo que ela já tinha encarado na corrida. “Eu fiquei muito ansiosa, falei: cara, eu não vou dar conta de fazer 21.” Mesmo assim, decidiu largar com uma estratégia simples: tentar, respeitar o corpo e parar se fosse necessário.
Os 21 km que pareciam impossíveis
A SP City não foi uma prova fácil. Aline conta que, mesmo gostando das atividades que pratica, o começo dos treinos costuma ser difícil porque o corpo pode ficar travado. Em uma meia maratona, esse desafio ganha outra dimensão. Ainda assim, ela seguiu. Quilômetro a quilômetro, a dúvida foi dando espaço a uma percepção diferente sobre o próprio corpo.
Quando cruzou a linha de chegada, a emoção veio de forma imediata. “Eu terminei a prova chorando.” O choro, ela explica, não era de dor. Era de felicidade. Completar os 21 km teve um peso simbólico enorme porque contrariava uma série de medos acumulados desde o diagnóstico. Aquela chegada mostrava, na prática, que a fibromialgia fazia parte da vida de Aline, mas não precisava definir tudo o que ela poderia ou não fazer.
A experiência mexeu com a forma como ela enxergava os próprios limites. “Eu tenho isso e consigo fazer as outras coisas que eram impossíveis.” A SP City, então, deixou de ser apenas uma prova feita de última hora. Virou um marco de possibilidade, um lugar onde a dor, a ansiedade e a dúvida não desapareceram, mas foram atravessadas.
SP City como compromisso daqui para frente
Depois daquela meia maratona, Aline tomou uma decisão pessoal. Enquanto puder, quer voltar todos os anos. “Enquanto eu estivesse aqui, Deus permitir, todos os anos que eu pudesse fazer a SP City eu iria fazer.” A frase mostra como a prova passou a representar mais do que uma medalha ou uma distância.
Para este ano, Aline já está inscrita. A inscrição foi feita ainda no ano passado, assim que as vagas abriram. Depois de chegar aos 21 km quase por acaso, entre medo, ansiedade e incerteza, a SP City se tornou parte do calendário e da própria história. Uma prova que começou como convite inesperado e virou lembrança concreta de que ainda era possível seguir, correr e se reconhecer em movimento.

















