Nem toda maratona entra na história de um corredor por causa do tempo. Algumas ficam porque concentram, em poucas horas, uma espécie de definição íntima: o dia em que a pessoa entendeu por que faz aquilo. Para Eder, a SP City Marathon ganhou esse peso logo na estreia, em 2016, quando o corpo não estava pronto para colaborar, mas a decisão de alinhar já tinha sido tomada.
O vínculo com a prova nasceu ali, no choque entre fragilidade e vontade, e foi se reforçando em retornos que marcaram etapas diferentes da mesma trajetória: primeiro a superação, depois a busca por uma execução melhor, e por fim a experiência de viver o evento também pelo olhar de treinador.
“Acho que tiveram dois momentos que foram chave pra mim nessa estreia”, ele diz, como quem organiza o passado em cenas. A primeira foi a largada, que, para ele, tem um tipo de energia difícil de reproduzir em qualquer outro lugar. “Eu cheguei muito mal, porque dois dias antes peguei uma virose forte e quase nem participei. Mesmo assim, fui. E a largada da SP City é diferente, tem uma energia que te puxa. Naquele momento, mesmo sem estar bem, eu só queria correr. Parecia que tudo que eu tinha treinado fazia sentido ali.”
A estreia não foi bonita, mas foi formadora

O restante do percurso não teve glamour nem narrativa fácil. Foi uma prova de gerenciamento, daquelas em que o atleta precisa resolver problemas em movimento e aceitar que, naquele dia, terminar era a meta que importava. “A prova foi bem sofrida, cheguei a ir ao banheiro mais de 16 vezes durante o percurso, mas em nenhum momento pensei em desistir.”. O ponto não é transformar o sofrimento em símbolo, e sim registrar o que foi decisivo: apesar do desconforto e do desgaste, desistir não entrou como opção.
O segundo momento-chave veio no final, quando a prova muda de temperatura emocional e o corredor percebe que não está sozinho. “Quando você entra nos últimos quilômetros e sente a torcida, gente chamando seu nome, incentivando, aquilo te leva até o final. É difícil explicar, mas faz tudo valer a pena.” No balanço, a estreia terminou como começo. “Esses dois momentos me marcaram muito. Mesmo sendo uma estreia dura, foi ali que eu entendi que a maratona ia fazer parte da minha vida.”
2017 e 2025: voltar melhor, e depois voltar para compartilhar

Quando Eder descreve a própria relação com a prova, ele não fala de uma sequência longa de edições. Ele escolhe três recortes e, ao fazer isso, organiza uma evolução: superação, execução e compartilhamento. “Acho que algumas edições definem bem essa minha relação com a SP City, e tem tudo a ver com o que eu falei da estreia.” A primeira, ele reforça, foi o marco inicial. “A primeira, sem dúvida, foi a mais marcante, por tudo que aconteceu. Foi uma prova muito sofrida, mas ao mesmo tempo foi ali que começou tudo.”
A segunda edição destacada veio um ano depois, em 2017, com um objetivo que já aponta maturidade. “A segunda edição, um ano depois, também foi especial. Eu voltei com um objetivo claro, fazer a prova bem feita, estar 100% preparado e viver a maratona de uma forma diferente da estreia. Queria sentir na prática aquilo que eu sabia que podia entregar.” O foco deixa de ser “terminar apesar do caos” e passa a ser “executar do jeito certo”.
O terceiro recorte vem na meia maratona de 2025, quando a SP City deixa de ser só um teste individual e vira também uma experiência de acompanhamento. “E a terceira que eu destaco foi a meia maratona do ano passado. Eu estava muito bem fisicamente, fiz meu melhor tempo na distância e, além disso, corri acompanhando um aluno do começo ao fim.”
O resultado, para ele, foi uma síntese rara: desempenho e função. “Isso deixou a prova ainda mais especial, porque foi uma mistura de performance com o lado de treinador.” Ele fecha a linha do tempo com clareza. “Essas três edições mostram bem essa evolução, da superação, passando pela busca de fazer melhor, até chegar num momento de performance e de compartilhar a experiência com outras pessoas.”
O evento mudou e ficou mais “corrível”

A relação com a SP City também se alimenta de uma percepção prática: ela evoluiu. “Acho que a SP City evoluiu muito ao longo dos anos, e isso fica claro em alguns pontos.” Para Eder, o percurso é um desses pontos, porque influencia diretamente a possibilidade de correr bem. “O percurso, por exemplo, a mudança da Brigadeiro para a 23 de Maio deixou a prova mais fluida e mais confortável de correr. Isso faz diferença pra quem está ali buscando performance.”
A estrutura entra como outro aspecto que ajuda a explicar o apelo do evento. “A estrutura também é um destaque, com kit muito bom, hidratação bem distribuída, gel no percurso e um suporte completo antes, durante e depois da prova. É uma experiência bem completa pro corredor.” A Expo também cresceu e virou parte do ritual. “Principalmente com a presença de grandes marcas, como a Nike esse ano, que valoriza ainda mais o evento.”
A 13ª maratona como comemoração, não cobrança
Em julho, Eder vai correr a 13ª maratona da sua trajetória na SP City, e o significado está bem definido. “Essa 13ª maratona vai ser uma prova de celebração.” O motivo tem data: “É um marco de 10 anos desde a minha primeira maratona, e poder viver isso novamente na SP City torna tudo ainda mais especial.” Ele faz questão de afastar qualquer ideia de encerramento. “Não é sobre fechar um ciclo, porque eu pretendo continuar correndo maratona por muitos anos ainda, mas sim celebrar tudo que a distância já me proporcionou até aqui.”
É uma fala que aponta para o que ele considera mais importante hoje: o caminho até a largada. “A maratona é algo que me faz muito bem, não só pela prova em si, mas por todo o processo, o treinamento, a disciplina, a evolução.” E explica a escolha de foco total. “Então, essa edição tem muito mais esse significado, de celebrar essa trajetória e viver bem esse momento.”
Depois, sim, vem a busca pelo melhor tempo
O calendário do segundo semestre ainda está em aberto porque, para ele, o centro do ano está definido. “Ainda não tenho nada definido pro segundo semestre. Meu foco total está na SP City esse ano, principalmente por todo o significado que ela tem pra mim.” Ele reforça o caráter comemorativo: “Vai ser uma prova mais comemorativa, pra celebrar esses 10 anos de maratona.”
A ambição por performance continua, só muda de lugar. “Pensando mais pra frente, a ideia é buscar meu melhor tempo, abaixo de 2h58, mas em outra prova, já depois da SP City.” No radar, ele mira grandes objetivos sem transformar em promessa. “Quero também me inscrever no sorteio de alguma major para 2027. Sei que não é garantido, mas é um objetivo que eu tenho.”
E adiciona uma opção pragmática para quem quer correr rápido. “Outra possibilidade é a Maratona de Amsterdã, em outubro, que é uma prova bem rápida e propícia pra performance.” Por enquanto, o presente é claro: “Mas, no momento, minha cabeça está 100% voltada pra SP City.”
A prova como síntese do que a corrida virou
Quando Eder tenta explicar o que a corrida representa hoje, ele volta à mesma ideia: é mais do que desempenho. “Acho que, no fim, a SP City representa muito bem o que é a corrida pra mim hoje.” Ele reconhece o lado competitivo, mas relativiza o peso dele. “Não é só sobre performance. Claro que eu gosto de evoluir, buscar tempo, me desafiar, mas depois de tantos anos, o que mais pesa é o processo e as pessoas que estão junto.”
O papel de treinador reorganiza esse sentido. “Hoje eu vivo a corrida também como treinador, e isso muda tudo. Ver alunos conquistando coisas que antes pareciam impossíveis, acompanhar essas histórias de perto, isso dá ainda mais sentido pra cada prova que eu corro.”
E a SP City, para ele, concentra tudo isso num mesmo lugar. “E a SP City acaba sendo um pouco disso tudo, história, evolução, comunidade e experiência.” Ao final, ele deixa um recado simples, sem moralismo: “Independente do nível, vale a pena viver o processo. A prova é só o resultado de tudo que foi construído antes.”

















