Jeff Galloway, pioneiro do run-walk, morre aos 80

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Jeff Galloway morreu aos 80 anos e deixa um legado que ultrapassa medalhas, tempos e resultados. Ex-atleta olímpico, treinador, autor e mentor de milhares de corredores ao redor do mundo, ele foi o responsável por uma das maiores mudanças culturais da corrida moderna: a normalização estratégica da caminhada dentro do treino e da prova. Em um esporte historicamente associado ao sofrimento contínuo, Galloway apresentou uma alternativa que parecia simples, mas que alterou a trajetória de milhões de praticantes.

Um símbolo que representa a corrida

Muito antes de se tornar conhecido pelo método run-walk-run, Galloway construiu carreira sólida como atleta de elite. Ele integrou a equipe dos Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de 1972, competindo nos 10.000 metros, e também teve desempenho expressivo em maratonas importantes da década de 1970. Seus tempos e colocações o posicionavam entre os principais nomes da corrida americana daquele período, em uma era que ainda vivia o auge do amadorismo rígido e da disciplina quase militar no treinamento.

O curioso é que, apesar do histórico competitivo, seu impacto mais duradouro não veio da elite, mas da base. Após a Olimpíada, Galloway passou a se dedicar ao ensino da corrida. Ao organizar grupos para iniciantes, percebeu um padrão recorrente: muitas pessoas abandonavam o esporte não por incapacidade física, mas por exaustão precoce, frustração ou lesões decorrentes de excesso de intensidade. Foi nesse contexto que surgiu a ideia que definiria sua carreira.

O nascimento do run-walk-run

O método run-walk-run nasceu da observação prática e da tentativa de manter corredores juntos e motivados. Em vez de orientar os alunos a correr continuamente até o limite, Galloway passou a inserir pausas programadas de caminhada desde o início da atividade. A proposta era simples: correr por um período curto e caminhar brevemente antes que o desgaste acumulado se tornasse excessivo. Esse ciclo se repetia ao longo do treino.

A mudança de perspectiva foi decisiva. A caminhada deixou de ser consequência da fadiga e passou a ser parte estratégica do plano. Ao reduzir o impacto contínuo e permitir micro-recuperações, o método diminuía a sobrecarga muscular, controlava melhor a frequência cardíaca e mantinha a percepção de esforço em níveis mais sustentáveis. O resultado foi imediato: corredores que antes não conseguiam completar distâncias curtas passaram a concluir provas mais longas com menos sofrimento e maior confiança.

Com o tempo, o método ganhou o apelido de “Jeffing” e passou a ser aplicado não apenas por iniciantes, mas também por maratonistas experientes que buscavam consistência e longevidade esportiva. A proposta nunca foi abandonar a performance, mas torná-la sustentável.

Quebrando o mito do “correr sem parar”

Durante décadas, a cultura da corrida reforçou a ideia de que caminhar durante uma prova significava fracasso ou falta de preparo. Galloway desafiou esse paradigma. Ele defendia que terminar forte e repetir o processo no dia seguinte era mais importante do que sustentar uma intensidade que levaria à quebra nos quilômetros finais.

Ao aplicar pausas estratégicas, muitos corredores conseguiam manter ritmo médio competitivo, justamente por evitar o colapso fisiológico que costuma ocorrer quando o esforço ultrapassa o limiar individual por tempo prolongado. Além disso, o método ajudava a reduzir o risco de lesões por sobrecarga, um dos principais fatores de abandono entre praticantes recreativos.

O impacto psicológico também era significativo. Ao saber que haveria momentos de recuperação planejados, o corredor sentia maior controle sobre o desafio. Isso reduzia a ansiedade pré-prova e tornava metas antes impensáveis mais tangíveis.

Muito além do método

Jeff Galloway escreveu mais de vinte livros, criou programas de treinamento, organizou campos de corrida e participou da estruturação de grandes eventos populares. Tornou-se referência mundial para quem buscava iniciar na modalidade com segurança e progressão inteligente. Sua abordagem misturava ciência do exercício, experiência prática e uma habilidade rara de comunicação clara e acessível.

Ele também ajudou a consolidar a corrida como movimento social. Suas lojas especializadas funcionavam como pontos de encontro, seus grupos integravam corredores de diferentes níveis e sua filosofia valorizava comunidade tanto quanto desempenho. Para Galloway, correr era ferramenta de saúde, autoconhecimento e conexão humana.

Mesmo após enfrentar problemas cardíacos nos últimos anos, manteve o discurso de que o movimento deveria ser adaptado, não abandonado. Ele acreditava que a corrida precisava acompanhar as fases da vida e que ajustes estratégicos permitiam continuidade por décadas.

O legado permanente

A morte de Jeff Galloway marca o fim de uma era, mas não o fim de sua influência. O run-walk-run continua presente em planilhas, aplicativos, grupos de treinamento e estratégias de prova ao redor do mundo. Mais do que uma técnica, ele deixou uma filosofia: a corrida deve ser inclusiva, inteligente e sustentável.

Em um cenário cada vez mais orientado por métricas, performance e recordes, Galloway lembrava que o maior triunfo é permanecer correndo ao longo dos anos. Ele mostrou que estratégia não é fraqueza, que caminhar pode ser parte do plano e que a linha de chegada pertence a quem persiste.

Se hoje milhões de pessoas se sentem autorizadas a começar devagar, caminhar quando necessário e continuar evoluindo, parte dessa transformação passa diretamente por Jeff Galloway. E talvez essa seja sua maior conquista: ter ampliado o conceito de quem pode ser corredor.

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