Correr para continuar: a SP City que transformou luto em legado

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Algumas maratonas começam no dia da inscrição. A de Alan Vicente começou quando correr ainda era apenas uma tentativa de mudar de vida. Ele iniciou na corrida em fevereiro de 2023, em Sorocaba, pesando 104 kg, com a saúde comprometida e o condicionamento muito ruim. “Eu vivia no automático”, relembra. Sempre via os vídeos do amigo treinando — boxe, bike, corrida — e aquilo mexia com ele. Um dia acordou decidido: “Chega. Eu vou começar a correr.” Aquela decisão simples foi o início de uma transformação que iria muito além do físico.

O começo foi extremamente difícil. Alan não conseguia correr nem um quilômetro contínuo. Seu primeiro treino foi de 5 km, completado em 1h10min, com muita falta de ar, desconforto e dúvidas sobre a própria capacidade. Mesmo assim, terminou. “Eu terminei. E aquele dia mudou tudo.” A partir dali, a corrida deixou de ser apenas um exercício e passou a ser compromisso pessoal. Não era sobre performance, era sobre provar que poderia continuar mesmo quando parecia impossível.

A transformação que começou por dentro

Com o tempo, Alan percebeu que carregava um vício silencioso: a alimentação desregrada ligada à ansiedade e ao estresse. “Comer por ansiedade, por estresse, por hábito. Eu vivia isso.” Quando começou a treinar com constância, entendeu que não fazia sentido se dedicar na pista e continuar se sabotando fora dela. Aos poucos, mudou hábitos, perdeu peso, ganhou saúde e recuperou autoestima. A disciplina do treino se espalhou para outras áreas da vida, trazendo equilíbrio e clareza.

“A corrida não transformou só meu corpo. Ela transformou minha mente.” O que começou como busca por saúde virou construção de identidade. Ele deixou de ser alguém que tentava correr para se tornar alguém que vive a corrida como parte de quem é. E foi nesse processo que a amizade com Ewerton ganhou ainda mais significado.

A amizade que virou legado

Ewerton não era apenas parceiro de corrida. Era amigo de vida. Eles treinavam juntos, participavam de provas juntos, assim como suas esposas. A corrida virou parte da amizade e da rotina. Ele sempre incentivava todos ao redor a se movimentarem e acreditarem que eram capazes de ir além. Sua frase marcante ecoa até hoje: “Acredite nos seus sonhos.”

Naquele momento, correr uma maratona ainda não era o objetivo de Alan. O sonho era ser saudável, vencer o sedentarismo e superar limites pessoais. Mas a ideia de que eram capazes de mais estava ali, plantada. Em uma viagem, Ewerton sofreu um acidente de moto e faleceu. A dor foi profunda e difícil de explicar. “Foi uma dor muito grande.” Diante da perda, surgiu também um sentimento de responsabilidade: continuar o que ele havia começado neles.

Transformar luto em propósito

A decisão de correr a maratona nasceu desse sentimento. Não como desafio esportivo, mas como compromisso emocional. Alan e a esposa de Ewerton decidiram que correriam a primeira maratona juntos. Não seria apenas sobre completar 42 km, mas sobre honrar uma amizade e manter vivo o incentivo que ele sempre ofereceu.

Cada treino passou a ter significado. Cada quilômetro deixou de ser apenas preparação física e se tornou uma conversa silenciosa com ele. “Carregamos um legado.” Eles não estiveram sozinhos. A esposa de Alan esteve presente em todos os momentos, oferecendo suporte emocional. Tecnicamente, foram preparados pela Run Brasil, com os treinadores Lucio e Servulo, que conduziram o processo com método, disciplina e confiança até a largada. A maratona deixou de ser apenas uma prova e se transformou em símbolo de resiliência e continuidade.

A SP City 2025: onde tudo ganhou sentido

Alan escolheu a SP City Marathon 2025 para viver sua primeira maratona. “A SP City 2025 marcou um divisor de águas na minha trajetória.” A largada foi emocionante, com a energia da cidade e milhares de pessoas reunidas pelo mesmo objetivo: superar limites. Ele sabia que não corria apenas por si. Corria por uma história que precisava continuar.

O percurso desafiador de São Paulo exigiu força mental. Subidas, mudanças de ritmo e momentos em que a mente começa a questionar fazem parte da maratona. “Não era sobre pace. Não era sobre tempo. Era sobre propósito.” Ele concluiu os 42 km em 3h54min. Para uma primeira maratona, um tempo que o enche de orgulho, não pelo número em si, mas pelo que representa.

Cruzando a linha de chegada, sentiu algo difícil de explicar. Não foi apenas alegria, foi transformação. Foi a confirmação de que era capaz de algo que um dia pareceu distante demais. Foi a certeza de que continuar vale a pena.

Mais do que uma medalha

Hoje, Alan afirma que pretende voltar à SP City todos os anos. Não por tradição, mas porque ela representa o ponto onde tudo mudou. “Ela marcou o início de uma nova versão de mim.” Em 2026, ele correrá três maratonas — Santiago, SP City e Paraguai — mas deixa claro que maratona não é sobre status ou medalha para postar. É sobre resiliência com a vida.

Cada linha de chegada representa mais do que 42 km. Representa disciplina, superação e continuidade. Representa a certeza de que, mesmo na ausência, o incentivo permanece. “O Ewerton pode ter partido fisicamente, mas o legado dele corre conosco até hoje.”

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