Personal trainer, mãe e corredora apaixonada, Paula Gomes já acumulava uma bagagem que impressiona: nove maratonas, pódios em provas duras como a Muralha Marathon e passagens por desafios de montanha como a Uphill Serra do Rio do Rastro.
Mas, entre tantos quilômetros e metas cumpridas, foi a SP City Marathon que se tornou o ponto de virada — a prova que, nas palavras dela, “foi a melhor da vida”.
O desejo surgiu de um jeito despretensioso. “Eu estava olhando o Instagram e vi um post com uma foto de uma medalha linda, escrito no post: inscreva-se. Era o post da SP City… Eu olhei a medalha e pensei: eu quero essa medalha”.
Aquilo que começou como curiosidade se transformou rapidamente em motivação. Ela fez as contas, olhou o calendário e percebeu que a prova caía no mesmo dia do seu treino mais longo, de 33 km.
“Fiquei acelerada… Pensei: ‘e se eu fizer uma maratona conservadora? Correr até o 33 km no meu pace e depois soltar e curtir o final? Não vou me machucar… Corro há tantos anos… Preciso ir’.” E assim, o que era um simples desejo virou plano.
Um ciclo construído com consistência

Paula iniciou o ano de 2025 com força. Em abril, voltou à Maratona Internacional de São Paulo com o propósito de quebrar o tempo feito em 2019, de 4h23. E conseguiu. “Deu! Fiz minha melhor maratona: 3h32. Cheguei chorando.”
Era a confirmação de que os anos de treino estavam dando resultado. Em 2023, já havia feito Curitiba mantendo o recorde pessoal de 3h33. E em 2024, optou por voltar à Muralha Marathon, respeitando o revezamento do percurso, um ano subindo, o outro descendo. “Voltei pra Muralha, 9ª mulher. Pódio de novo, 3ª na categoria.” O desempenho sólido e a constância abriram caminho para o desafio seguinte.
“Eu não ia voltar, mas minhas alunas me deram pra ir com elas.” Foi assim que a SP City entrou oficialmente no calendário. A ideia inicial era apenas aproveitar o momento e completar a prova, mas logo o espírito competitivo falou mais alto.
“Daí veio o diabinho: e se eu pegar top 100? Se eu for forte nela e deixar a Muralha pra ir de boas?” A partir daí, a SP City virou a prova-alvo do ano.
A preparação e o foco absoluto
Com a decisão tomada, Paula mergulhou de vez no ciclo. Estudou resultados de 2024, simulou ritmos e calculou chances. “Peguei os resultados e fiz as contas. Se eu fizesse a prova em até 3h50, talvez tivesse chance”.
Ela se inscreveu e garantiu vaga no pelotão A. A rotina passou a girar em torno da maratona paulistana. “Era a prova-alvo do meu ano. Não pensava em outra coisa. Meditava todos os dias pela manhã com foco no top 100.”
Nos treinos, a dedicação era total. Mesmo assim, um sinal inesperado apareceu. “Veio uma fisgadinha no quadril. Observei e não dei muita atenção.” A experiência de quem já correu provas exigentes falou mais alto. Ela manteve o plano e confiou no corpo. “Chegou o dia e eu estava muito animada. Me emocionei na largada. Que vibe.”
Quando a cabeça corre junto com o corpo
Logo no quilômetro 2, a fisgada voltou. Era o tipo de situação que poderia abalar qualquer atleta, mas Paula manteve a calma. “Fui bem racional. Pensei: tenho algumas opções. Se a dor não aumentar, eu consigo terminar nesse ritmo, mas não posso pensar em andar em nenhum momento. Se a dor aumentar, posso parar no 10… mas não posso parar no 10, porque não tenho a medalha que tanto queria.” Ela respirou fundo e seguiu. “Bom, segue… Só segue. Curti cada km”.
O ritmo se encaixou. A dor não aumentou. E a corrida começou a fluir com naturalidade. “O ritmo tava lindo e eu não me cansei nos percursos que normalmente canso. Estava radiante e concentrada.” Paula não olhava o tempo total — apenas as parciais a cada quilômetro. “Elas me agradavam.” No quilômetro 41, levantou os olhos e viu o cronômetro. “Vi a galera do corredor gritando e aplaudindo e ali eu já comecei a chorar”.
Ela completou a SP City em 3h30min24s, um pace médio de 4.59/km e com o a medalha de TOP 100 garantida!
A prova da vida
O choro na reta final veio como descarga de tudo o que havia vivido nos meses anteriores. “Sim, era minha melhor prova. A prova da minha vida. Cruzei a linha de chegada chorando igual a criança, cravando 3h30.” A emoção era tanta que ela ainda sente ao relembrar. “Me emociono só de lembrar.” E veio o resultado que completou o roteiro: “Ah… siiimmm, deu top 100 com sobra! Eu fui muito, muito feliz na SP City.”
O ano ainda guardava mais conquistas. Depois da SP City, Paula voltou para a Muralha e fez o melhor tempo no percurso, dois minutos abaixo da última marca. “Mas a mulherada tava braba e não deu pódio”, contou rindo. Até agora, são nove maratonas completadas — cada uma com uma história própria, mas nenhuma tão simbólica quanto a SP City.
Mais do que o tempo final ou o resultado no ranking, a SP City se tornou o símbolo de tudo o que a corrida representa para ela: a disciplina que vem do treino, a leveza de quem corre por amor e a força de quem sabe que, às vezes, basta seguir — um quilômetro de cada vez.

















