Junior Double começou a correr sem qualquer sinal de que um dia transformaria a maratona em parte central da própria identidade. O início veio em 2003/2004, depois de uma relação distante com o esporte. Ele não era daqueles que cresceram apaixonados por treino ou competição. Pelo contrário: entrou na corrida quase como quem descobre, aos poucos, uma capacidade escondida.
No começo, a distância parecia pequena para os outros, mas enorme para ele. “Nunca gostei de praticar nenhum esporte e a corrida entrou de uma forma bem diferente pois eu simplesmente não conseguia correr 1 km”. Enquanto os amigos já faziam 5 km ou 10 km, Junior precisava caminhar para completar os primeiros 1000 metros. Ainda assim, continuou. “Mas ali nascia algo que nem eu mesmo sabia que tinha: medo de desistir”.
A virada veio em 2008, quando entrou na assessoria Nova Equipe. A partir dali, a corrida deixou de ser uma tentativa solitária e passou a ter estrutura. Em 2009, ele já fazia sua primeira maratona, mesmo depois de ouvir que a distância talvez não fosse possível para ele. “Fiz mesmo ouvido de um médico que eu nunca iria correr a distancia de 42km por causa da condromalácia patelar.”
Da primeira maratona ao vício pelos 42 km
Depois da estreia, Junior não parou mais. A maratona deixou de ser um desafio isolado e virou uma sequência. “Depois da primeira maratona, fiquei totalmente viciado e, já no primeiro ano, fiz 6 maratonas e nunca mais parei!” Hoje, ele soma 159 maratonas e ultras, número que ajuda a explicar por que sua relação com a corrida ultrapassou há muito tempo a lógica de uma prova ou de uma medalha.
Entre tantas experiências, as Six Majors também fazem parte da trajetória. Mas, no caso dele, não bastava completar os 42 km. “Já corri as Six Majors (onde dobrei todas, ou seja, correr 84km no lugar dos 42)”. Mesmo com provas acumuladas pelo mundo, a SP City ocupa um lugar próprio nessa lista. “A SP City está no meu TOP 10”.
SP City: todas as edições e uma relação construída ano a ano

A ligação de Junior com a SP City passa pela prova, mas também pela forma como ele enxerga a organização e o papel de uma maratona em São Paulo. “A SP City sempre foi muito especial para mim, pois a Iguana na minha opinião é a melhor organizadora de provas do País.” Para ele, a entrega do evento conversa diretamente com a cidade e com quem corre. “Ela escuta o corredor, sabe entregar profissionalismo e respeito que a cidade de São Paulo precisa quando falamos de uma maratona.”
Junior participou de todas as edições da SP City, mas algumas ficaram mais marcadas. Em 2017, levou a ideia de alongar a experiência a outro nível. Saiu de Guarulhos correndo até a largada, no Pacaembu, completando 24 km antes mesmo do início oficial. Depois fez os 42 km da maratona e ainda rodou mais 14 km. “Depois da maratona (66 km acumulados) rodei mais 14 km para completar os 80 km”.
SP City 2022: palco, resiliência e o nome da prova nas ruas
Em 2022, a presença dele na SP City foi além do percurso. Junior participou da Expo falando sobre resiliência, um tema que combina com a própria história de alguém que começou sem conseguir correr 1 km e acabou transformando a longa distância em território conhecido. A edição também teve uma ação simbólica nas ruas de São Paulo. “Corri 30 km escrevendo “SP CITY” nas ruas de SP”.
SP City 2024: 100 km para comemorar a centésima maratona

O capítulo mais emblemático veio em 2024. A ideia inicial era dobrar a SP City, como Junior já havia feito em provas como Rio de Janeiro, Nova York, Chicago, Lisboa, Bilbao, Berlin, Londres, Uberlândia, Tokyo, Boston e Two Oceans. Mas havia um motivo maior naquele ano: celebrar a centésima maratona. “Mas como a ideia era comemorar a minha centésima maratona, por que não correr 100 km não é mesmo?! rs”.
O plano era fazer o percurso oficial em sentido inverso durante a madrugada e depois largar normalmente com os demais corredores. Ele conversou com a organização, que autorizou sua entrada no Jóquei para começar a jornada. A USP, porém, não liberou a passagem uma semana antes da prova. Junior adaptou o plano sem abandonar a ideia.
Na madrugada, saiu de casa correndo em direção ao Jóquei, completando 16 km até a chegada oficial, que para ele funcionaria como largada da maratona invertida. Dentro do Jóquei, encontrou staffs trabalhando e alguns olhando a cena incomum. “Alguns ficaram olhando ‘o doido que ia correr 84 km kkkk’”. Dali, partiu para os 42 km invertidos, ajustando o trecho da USP para não perder o desenho do percurso.
A experiência de correr São Paulo de madrugada marcou o dia. “Foi delicioso correr em SP na madrugada”. Ele chegou 20 minutos antes da largada oficial, encontrou os amigos e seguiu para mais 42 km, agora dentro da prova. Nos últimos 5 km, a esposa e outros amigos se juntaram para a chegada. “Chegada que foi narrada com esplendor por Carmecita e Pricolli! Foi um dia memorável.”
SP City 2026 e a próxima ultra
Junior já projeta mais um capítulo na prova. “É claro que vou correr a SP City esse ano!!” A edição de 2026 terá peso numérico e simbólico: será sua maratona/ultra de número 164. Ele também acompanha com expectativa a nova fase da prova com a Nike. “Estou muito ansioso para ver o que a parceria com a Nike vai trazer de novo para essa grandiosa prova.”
No calendário, outro marco se aproxima. “Esse ano eu faço minha trigésima ultramaratona e a escolhida é a COMRADES. a maior ultra do mundo!!” A SP City, porém, segue como uma das provas que ajudam a organizar sua história. De quem não conseguia correr 1 km a um corredor que celebrou 100 maratonas com 100 km em São Paulo, Junior Double encontrou na prova um palco à altura da própria trajetória.

















