Giovanni Tonello começou a correr no dia 4 de janeiro de 2017. A data é precisa porque marca um ponto de virada. Não foi uma decisão estética, nem esportiva, nem motivada por performance. Foi médica. Em meados de 2015, ele descobriu que tinha hipertensão. O cardiologista foi direto: era preciso sair do sedentarismo. Correr apareceu como uma recomendação objetiva, mas o que viria depois escaparia completamente do script.
Além da orientação médica, havia um incentivo prático. No trabalho, existia um programa de corrida que reembolsava inscrições em provas, uma forma de estimular a prática esportiva. Giovanni começou assim, quase sem perceber que aquele gesto funcional acabaria moldando a sua vida.
Vieram as primeiras provas, depois outras, e logo ele percebeu que algo tinha mudado. “Como dizem, o mosquitinho da corrida me picou”, conta. A meta daquele primeiro ano era simples e simbólica: correr a São Silvestre. Em 2017, ele correu. E não parou mais.
As primeiras distâncias e o encontro com a SP City
Em 2018, Giovanni deu um passo importante na sua trajetória ao completar suas primeiras meias-maratonas. A Golden Run veio primeiro. Depois, a SP City Half Marathon. Aquela foi apenas a sua segunda meia da vida, mas já carregava algo diferente. O trajeto, o clima da prova e a experiência urbana o marcaram de imediato. “Quando fiz, já me apaixonei e sempre decidi que iria fazer a SPC City”, lembra.
No ano seguinte, em 2019, ele voltou para a SP City, novamente nos 21 km. As duas edições aconteceram em um momento muito específico da sua trajetória. Giovanni ainda estava construindo base, entendendo o corpo, aprendendo a sustentar distâncias maiores. Não havia fantasia, não havia personagens, não havia espetáculo. Mas havia algo fundamental: a consolidação da SP City como uma prova fixa na sua vida de corredor.
Nas duas meias, a meta era clara e objetiva: tentar correr abaixo de duas horas. E ele conseguiu em ambas. Mais do que o tempo, aquelas provas representaram o início de uma relação duradoura com a SP City, que deixaria de ser apenas uma corrida no calendário para se tornar um ponto de referência pessoal.
A pandemia, os 42 km improvisados e a maratona que não aconteceu
Até o fim de 2019, Giovanni corria majoritariamente provas de até meia-maratona. Em paralelo, já começava a se preparar para algo maior: a Maratona Internacional de São Paulo, marcada para 2020. O ciclo estava praticamente todo feito quando o mundo parou. A pandemia cancelou provas, esvaziou ruas e confinou corredores dentro de casa.
Com o ciclo completo, mas sem prova, Giovanni decidiu não deixar o esforço se perder. Foi dentro do próprio apartamento que ele completou seus primeiros 42 km. Uma maratona improvisada, sem medalha, sem largada, sem público, mas que teve um peso simbólico enorme.
Entre 2020 e 2022, enquanto as provas oficiais ainda não tinham retornado plenamente, ele seguiu correndo pela cidade, acumulando distâncias de 42 km e até um pouco mais, de forma independente. Quando as corridas voltaram, Giovanni já não era mais um estreante. Ele tinha base, volume e experiência para encarar maratonas.
A primeira maratona oficial e a virada estética
Em 2022, finalmente aconteceu a Maratona Internacional de São Paulo, adiada desde 2020. Aquela foi a primeira maratona oficial de Giovanni. Ele correu “de forma normal”, como ele mesmo brinca. Mas algo já estava mudando.
Desde muito tempo, Giovanni observava com curiosidade os corredores fantasiados, especialmente na São Silvestre. Também via esse tipo de manifestação em provas pelo mundo. Havia algo ali que o atraía: o lúdico, a quebra da seriedade excessiva, a possibilidade de transformar uma prova duríssima em algo mais leve, ao menos mentalmente.
Com a primeira maratona “convencional” concluída, ele tomou uma decisão: sempre que possível, passaria a correr maratonas fantasiado. A SP City seria o palco ideal para isso.
SP City Marathon 2022: Forrest Gump entra em cena

A primeira maratona da SP City de Giovanni aconteceu em 2022. E já veio com personagem. Naquele ano, ele estava correndo bastante e decidiu unir duas coisas que gostava: maratona e fantasia. Escolheu Forrest Gump, um símbolo quase óbvio para quem corre longas distâncias sem grandes explicações.
Desde a Maratona Internacional de São Paulo, ele deixou barba e cabelo crescerem. No dia da prova, vestiu camisa amarela, bermuda vermelha, colocou um boné do Bubba Gump e foi para os 42 km assim. Aquela edição marcou o início de uma tradição pessoal: todas as maratonas da SP City, a partir dali, seriam corridas fantasiado.
SP City Marathon 2023: Rocky Balboa e a força da mente

Em 2023, Giovanni voltou à SP City com outra fantasia icônica: Rocky Balboa. Usou a clássica roupa cinza do personagem e levou consigo uma caixinha de som tocando as músicas do filme durante a prova. Não era apenas estética. Era estratégia mental.
Ele percebeu algo importante naquela edição, especialmente em trechos mais difíceis do percurso, como a região da Politécnica. A música, a fantasia e a interação com o público ajudaram não só a ele, mas também aos corredores ao redor. “Vi que ajudou mentalmente a passar dessa parte”, conta. Em meio ao cansaço coletivo, o personagem criava um respiro. As pessoas sorriam, comentavam, esqueciam por alguns instantes a dor.
Ali, Giovanni entendeu que correr fantasiado não era apenas diversão pessoal. Era uma forma de impactar o ambiente da prova.
SP City Marathon 2024: Freddie Mercury, auge físico e limite do corpo

Em 2024, Giovanni chegou à SP City se sentindo no auge físico. Poderia, se quisesse, buscar um sub-4 horas. Mas a fantasia falou mais alto novamente. O personagem escolhido foi Freddie Mercury. A preparação foi intensa e longa. Ele passou todo o ciclo ouvindo Queen, testando calças jeans que não atrapalhassem a corrida, montando um microfone cenográfico e deixando o bigode crescer, que depois foi pintado de preto.
No dia da prova, correu de regata, calça jeans, dentadura falsa fixada com Corega, microfone na mão e músicas do Queen acompanhando cada quilômetro. Estava muito bem fisicamente, mas sentiu uma fisgada pouco depois da primeira metade da prova. Mesmo assim, concluiu a maratona em cerca de 4h05. Não foi o tempo que marcou aquela edição, mas o processo inteiro de construção da experiência.
Minimalismo, pés no chão e a transformação silenciosa

Paralelamente às maratonas fantasiadas, Giovanni passava por outra transformação. Ao longo de seus nove anos correndo, ele sempre teve uma relação crítica com tênis. Nunca gostou de modelos caros, grandes ou tecnológicos. Sempre usou os calçados até quase não restar sola. Nunca aderiu à lógica de trocar tênis a cada 400 km. Para ele, aquilo sempre soou como consumismo excessivo.
Em 2023, começou a testar correr descalço. Em 2024, esse processo se intensificou. A leitura do livro Nascidos para Correr coincidiu com um encontro casual com um amigo que corria descalço, uma semana antes da SP City de Freddie Mercury. Eles correram juntos de cinco a sete quilômetros na Avenida Paulista. A curiosidade virou prática. O ajuste foi gradual. Até hoje, Giovanni admite que às vezes usa alguma proteção mínima, como sandálias ou sapatilhas. Mas, em provas, passou a priorizar correr descalço.
SP City Marathon 2025: Náufrago, Wilson e os 42 km sem tênis

A SP City de 2025 consolidou essa mudança. Giovanni decidiu que correria as maratonas daquele ano descalço. Para a SP City, combinou com uma amiga que também corre descalça uma fantasia dupla: Náufrago e a bola Wilson. Mais uma vez, a escolha dialogava com Forrest Gump, vivido pelo mesmo ator.
Ele deixou barba e cabelo crescerem, levou a bola Wilson com o rosto desenhado e até uma encomenda simbólica da FedEx. A maratona foi feita inteira sem tênis. Fantasia, minimalismo e cidade se encontraram ali de forma definitiva.
Metas, futuro e a SP City como eixo permanente
Giovanni sempre correu majoritariamente em São Paulo e, no máximo, na região do ABC. Em 2025, a SP City se tornou sua oitava maratona. Em 2026, ele está inscrito na Maratona de Piracicaba, que deve ser a nona, para que a SP City se torne a décima maratona da sua trajetória. A prova segue no centro dos seus planos.
Ele tem ideias para a próxima fantasia, mas ainda avalia o quão trabalhosa ela será. Já tem duas fantasias pensadas para meias-maratonas no começo do ano. Além das maratonas, pretende seguir investindo nas ultramaratonas, especialmente em pista. Desde 2024, faz ao menos uma nesse formato. Já correu a Fênix 6h, a Jurassic 12h, a Fênix 12h e os 50 km da SP Endurance. Em 2026, pretende repetir essas provas, buscando sofrer menos, mais do que melhorar drasticamente a performance.
Correr como escolha consciente
Ao olhar para trás, Giovanni identifica provas marcantes que moldaram sua trajetória: a primeira corrida na Vila Carrão, a primeira São Silvestre em 2017, os primeiros 21 km, os primeiros 42 km, a primeira ultra. Mas guarda com mais carinho as histórias vividas correndo fantasiado do que os tempos no relógio.
A única maratona sub-4 que fez, na Maratona Fila de 2023, não ocupa o mesmo lugar afetivo que as SP City corridas como Forrest Gump, Rocky, Freddie Mercury ou Náufrago. Porque, para ele, correr nunca foi apenas sobre chegar mais rápido. Sempre foi sobre como chegar.
Na SP City, Giovanni encontrou o espaço ideal para expressar isso. Uma prova urbana, cheia de gente, onde a fantasia vira conversa, a música vira alívio e o esforço vira algo compartilhado. É ali que sua história faz mais sentido. Não como espetáculo vazio, mas como lembrança viva de que correr também pode ser resistência, crítica, humor e identidade.
E, para Giovanni Tonello, enquanto houver SP City, haverá história para contar.

















