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Reeducação das funções básicas

Como desaprendemos a respirar e a relaxar

Por: Marcos Rojo* - São Paulo - 06/09/2013
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Foto: Thinkstock

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O estilo de vida que adotamos nos dias de hoje prejudica boa parte das nossas funções humanas básicas. Ou seja, hoje precisamos reaprender a andar, correr, saltar etc. Como professor de educação física, percebo que numa aula de caminhada, boa parte dos alunos anda para a frente com os pés apontando para os lados em condição assimétrica. Isso não aconteceria com os índios, por exemplo, que têm seu caminhar perfeito, suave e eficiente. Andamos constantemente calçados e em chãos planos, o que enfraquece nossa estrutura de apoio. Se uma criança “urbana” começa a subir numa árvore, a mãe logo gritará para que ela desça, tentando protegê-la da queda ou, às vezes, para não sujar a roupa, e essas limitações nos farão falta mais tarde.

Vamos perdendo boa parte das respostas adequadas às nossas funções básicas. Se alguém quiser informações precisas sobre uma dieta adequada, terá de ir a um especialista para que ele diga o que comer e quanto comer. Animais que não vivem em cativeiro, esses que ainda têm a sorte de andar livres pela floresta, não estão obesos, não comem mais do que o necessário. Um leão satisfeito é um animal inofensivo, o problema é saber se já está na hora de ele comer de novo. Não vamos encontrar um jacaré no Pantanal que no sábado resolve comer três ou quatro vezes mais, deixando para começar seu regime na próxima segunda-feira. Isso é coisa de humanos. Temos a capacidade de comer mais do que o necessário e, pior ainda, temos a capacidade de comer o que sabemos que não nos faz bem.

Se vamos a uma festa, é provável que ultrapassemos nossa capacidade de digestão confortável só para agradar ao dono da festa, que insiste que comamos mais um pouco da iguaria que ele preparou com tanto carinho. É comum eu sair de uma festa arrependido por ter comido muito e aí vem um outro impulso natural para resolver esse abuso, que nós também inibimos. Ou seja, quando sentimos vontade de vomitar, fazemos qualquer coisa para evitar esse impulso, tomamos sais de frutas e alguns refrigerantes com a intenção de reprimir aquilo que o corpo está pedindo, mesmo sabendo que depois de três minutos de ter vomitado estaremos perfeitos. Nenês e animais vomitam com tanta facilidade que às vezes só percebemos quando vimos o que devolveram, não fazem nenhum escândalo. Ao contrário, nós, adultos, fazemos um escândalo. Toda a vizinhança fica sabendo que não estávamos bem. Perdemos essa condição natural.

Continuando nessa linha, hoje as gestantes devem fazer o curso de preparação para o parto. Já ouvi dizer que em condições de vida natural, algumas mulheres pariam num dia e no dia seguinte já estavam trabalhando. Junto com o curso, as futuras mamães ainda levam os maridos, com a ilusão de que poderão ajudar. Em geral, atrapalhamos. No nascimento da minha última filha, para assistir ao parto, tinha de levar o certificado do curso que eu havia realizado. No corre-corre de sair de casa para a maternidade, é lógico que eu o esqueci, mas mesmo assim não consegui escapar de fazer parte da primeira fila, o médico autorizou. O pior de tudo isso é o fato de algumas pessoas com problemas respiratórios terem de ir a um especialista (fisioterapeuta ou educador físico) para aprenderem a respirar. Quantas vezes, numa aula de Yoga, percebo alunos fazendo os exercícios respiratórios num padrão inverso ao natural e ainda teimam, dizendo que sempre respiraram assim? Você já viu uma criança de berço inspirando pelo nariz e expirando pela boca? Mas é comum em ambiente de educação física você ouvir que esta é a respiração correta para todos os momentos.

Yoga é um processo de reeducação dessas funções básicas e de tantas outras, por nos colocar em contato consciente com os impulsos, reflexos e estímulos corretos.Comer conscientemente ajuda alguém a decidir melhor sobre o que comer e quanto comer. Respirar consciente e relaxadamente reeduca movimentos que julgávamos estranhos. Com o Yoga aprendemos a obedecer melhor àsnossas necessidades, em detrimento do apelo social.

De todas essas perdas, as que mais me chamam atenção são a perda da capacidade de relaxamento e da capacidade de observar passivamente. Esses dois componentes são básicos para o aspirante à meditação.

Bebês dormem completamente relaxados. Quando vamos tirá-los dormindo do berço, estão fantasticamente soltos; mas com relação aos adultos, não podemos garantir que enquanto dormimos estamos descansando. Quantas vezes rangemos os dentes dormindo a ponto de comprometer nossa arcada dentária? Quantas vezes nos debatemos e lutamos dormindo enquanto sonhamos que estamos nos afogando? Um amigo me contou recentemente que seu sono anda muito agitado. Ele se move tanto que, às vezes, tem de acordar no meio da noite para descansar um pouco e depois voltar para dormir. Temos de treinar o relaxamento, deixando a mente em contato com essa sensação conscientemente. Temos de sentir o peso do corpo, o contato do corpo com o chão, temos de treinar savasana conscientemente, para reeducar esta condição básica, tão necessária para a nossa saúde.

Para terminar, temos de treinar o ato de ficarmos quietos. Quando temos um domingo inteiro para ficar sem fazer nada, muitas vezes vamos para a internet ver se arrumamos alguma encrenca. Hoje já não nos sentamos mais na varanda para conversar sem pressa com um amigo. A família não se reúne na sala para bater um papo. Ficar sentado no banco do jardim olhando os passarinhos chega perto da “insanidade”. Se você estiver sentado sozinho, quieto numa praça por muito tempo, vão tachá-lo de deprimido e os mais solidários vão perguntar se você está bem, se precisa de ajuda. Se você não responder, vão chamar a ambulância, porque seguramente o que você está fazendo é estranho (acho que exagerei). Temos de treinar a observação passiva. É tão legal ficar observando sem julgar, programar, analisar, procurar ou justificar. Seria tão bom se, ao ouvir o barulho da chuva, alguém pudesse curtir essa sinfonia sem imediatamente pensar se deixou a roupa no varal. Será tão mais fácil meditar se vivermos assim.

O Yoga é um sistema de reeducação das nossas funções mais básicas. Tudo o que buscamos com sua prática é natural ao ser humano e se você não se encaixa em nenhum dos desajustes citados acima, sei que vai me desculpar por ter lido este artigo.

*Marcos Rojo é professor da Universidade de São Paulo e coordenador do curso de pós-graduação de Yoga da UniFMU

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