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Ayrton Senna: mais que piloto, atleta

20 anos após sua morte, seu treinador físico e mental, Nuno Cobra, fala sobre a dedicação e o dom de um dos grande heróis do esporte nacional

Por: Olavo Guerra - São Paulo - 30/04/2014
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Foto: Nelson Coelho.

Foto: Nelson Coelho.

Há exatos 20 anos, o Brasil perdia um de seus grandes esportistas de toda a história. Mais do que isso, um herói nacional: Ayrton Senna da Silva. Sua obsessão em ser sempre o primeiro o transformou em um atleta impressionante. Ele contou com uma ajuda fundamental. O treinador físico e mental, Nuno Cobra, esteve ao lado de Senna desde que o piloto tinha 22 anos. O jovem franzino, com uma capacidade cardiovascular muito fraca, começou a correr (muito) e se exercitar para se transformar em um esportista completo. “Ele [Senna] não tinha o dom de pilotar, isso ele aprendeu e aprimorou. Tinha o dom do fazer”, afirma. Em entrevista ao Sua Corrida, Cobra conta um pouco de sua experiência com um dos grandes nomes da história do automobilismo.

O início
“Eu tive que mudar alguns hábitos dele”, lembra o treinador. “Ele tinha 22 anos, era jovem, com a testosterona exalando pela pele, e tinha aquela coisa da noite. Ele ia dormir sempre muito tarde, por volta das 2h.” Cobra convenceu Senna de que dormir mais cedo seria importante para a sua recuperação. “Ele também era uma máquina de comer. Engolia tudo muito rápido, sem mastigar. Eu disse a ele: ‘Ayrton, estômago não tem dentes’.” Logo, com os conselhos do treinador, o piloto passou a mastigar a ponto de a comida virar um líquido em sua boca.

Não é à toa que Cobra insiste que o dom de Senna era o ‘fazer’. “Essa determinação dele fez com que chegasse onde chegou.” Segundo o treinador, “o mais difícil foi impor um outro estilo de vida, com novos hábitos”. Nuno lembra de uma entrevista que o atleta conscedeu à TV Globo, no início de sua carreira – antes mesmo da Fórmula 1 –, dizendo que detestava correr.

Na época da Fórmula 3, o piloto acreditava que tinha algum problema de coração, pois se sentia mal após as corridas. “Eu fiz todos os testes nele e, obviamente, descobri que ele não tinha problema nenhum, apenas não trabalhava esse músculo o quanto era necessário para toda a atividade que ele praticava.” Os primeiros passos de Senna foram caminhando, por conta de sua debilidade cardiovascular. “Pouco a pouco, foi evoluindo, sempre treinando na pista de atletismo.”

Evolução
Depois que Senna adquiriu certo preparo físico, ele começou a fazer uma preparação especial. “A temporada terminava em outubro e eu dava alguns dias para ele descansar”, revela Cobra. “Em seguida, começávamos a preparação. Ele passava outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro e início de março, quando, na época, o Grande Prêmio de Jacarepaguá abria o calendário da Fórmula 1, treinando quatro horas por dia.” Ou seja, o sucesso era fruto de muita dedicação.

“O Ayrton pegou o final da era romântica, em que os pilotos só queriam sair para a noite”, comenta Nuno. “Senna introduziu esse trabalho de preparação, não só física, mas da pessoa”, pois, de acordo com o treinador, a transformação não é só do corpo, e sim, da pessoa como um todo.

O método de treinamento ensinado por Cobra utiliza apenas o corpo, sem aparelhos de academia. “Um dia, perguntei para o Ayrton o que ele mais gostaria de fazer com o corpo e ele me respondeu que era se erguer em uma barra, pois alguns amigos dele faziam isso.” Com o preparo adquirido, Senna conseguiu realizar o feito – e muito mais. “Aquilo que era impossível, ficou fácil. Houve uma mudança espiritual para ele, que começou a ver o poder que tinha e isso dava muita confiança na hora das corridas.”

Curiosidades
De acordo com o treinador, não havia um exercício que Senna não gostasse. “Eu costumo brincar que o cara que se exercita e se dedica bastante, faz aquilo por que gosta, bem como o cara que não faz nada é assim porque adora!” Senna gostava de correr e fazer os exercícios passados por Nuno, pois percebia que sua saúde melhorava e sua capacidade dentro das pistas também.

Outra passagem curiosa é a influência do piloto para que, até hoje, Adriane Galisteu – com quem Senna namorava quando faleceu, em 1994 – corra. “Um dia, o Ayrton me pediu para dar uma ajuda, pois a Adriane acordava e tomava dois copos de Coca-Cola.” Senna não se conformava com isso. “Ele tinha um carinho muito especial por ela, maior do que pelas outras. E olha que eu conheci todas”, brinca. Com o auxílio de Nuno, a modelo começou a caminhar no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Na edição 25, de novembro de 2012, da revista W Run, ela confirmou a história. “Aprendi a gostar de correr com o Nuno Cobra, preparador físico do Ayrton Senna.”

O treinador fez uma revelação. “Acho que nunca contei essa história antes, mas a Adriane estava se preparando bastante, pois queria correr ao lado do Ayrton. Ela viajou para Imola naquele fatídico fim de semana para fazer uma surpresa para ele”, diz. “Ela ia, pela primeira vez, correr lado a lado com Senna. Estava bem preparada, mas, infelizmente, não deu tempo.”

Se estivesse vivo, Senna correria até hoje?
“Sem dúvida”, responde, de bate-pronto. “Ao longo dos dez anos que trabalhamos juntos, ele jamais se machucou e fazia aquilo, não só porque ficava mais preparado para pilotar, mas porque gostava e fazia bem para a sua saúde.”

Cobra faz uma última colocação a respeito do piloto. “Queria que as pessoas se espelhassem nessa figura impressionante que ele era. Senna é o maior exemplo de que podemos transformar completamente nossas vidas.” Para o treinador, “Ayrton teria sucesso em qualquer atividade que quisesse por conta da sua dedicação e comprometimento sem igual”.

Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

 

Sobre o treinador
Nuno Cobra, 75, é graduado em educação física pela Escola de Educação Física de São Carlos. Escreveu o best-seller A Semente da Vitória, em que exibe seu método de treinamento. Além de Senna, Cobra treinou pilotos como Christian Fittipaldi, Gil de Ferran, Rubens Barrichelo e o finlandês Mika Hakkinen.

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